Um ano após o Massacre, tristeza e esperança convivem sem maiores problemas

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Quais são os rostos do 29 de abril? O que sentem as servidoras e os servidores que retornaram à Praça Nossa Senhora de Salete um ano depois do Massacre do Centro Cívico? Sem balas de borracha, sem helicópteros que arremessam bombas, sem os Pit Bulls da Polícia Militar do Paraná e sem sangue, trabalhadoras/es atingidas/os pela alteração da Paranaprevidência marcharam até a praça Nossa Senhora de Salete, palco do massacre, para não deixar que o mais triste episódio político do estado caia no esquecimento. Um ano depois, esperança e tristeza convivem sem maiores problemas.

rostos-29-abrilO “Fora, Beto Richa” estava nas camisetas, nos adesivos e nas palavras de ordem das servidoras e servidores que compareceram à manifestação em memória do Massacre do Centro Cívico, realizado em 29 de abril de 2015 pela Polícia Militar do Paraná. Mais de 200 pessoas saíram feridas do fatídico episódio, que estampou noticiários no Brasil e no mundo. Um ano depois, as categorias prejudicadas pelo projeto de lei que alterou o funcionamento da Paranaprevidência saíram às ruas novamente. Indignação, tristeza e esperança conviviam sem maiores problemas na praça Nossa Senhora de Salete, ponto final da manifestação que reuniu cerca de 30 mil pessoas na última sexta-feira (29).

Naquela quarta-feira, 29 de abril de 2015, mais de 200 cidadãos e cidadãs saíram feridos da operação montada por 2.516 policiais que dispararam 1.413 bombas de fumaça, gás lacrimogênio e efeito moral, 2.323 balas de borracha e 25 garrafas de spray de pimenta contra os manifestantes. A conta da repressão beira R$1 milhão. Os números são da própria Polícia Militar do Paraná. Um ano depois, na mesma praça, o clima de tranquilidade contrastava com o cenário de guerra visto exatamente 365 dias antes.

Uma fotografia virou símbolo do Massacre e a professora que nela aparece se transformou numa espécie de mártir da mobilização. A coragem de Angela Alves Machado,que leciona História em São José dos Pinhais, chamou a atenção de quem fotografava a operação. Seu rosto em pânico acabou circulando o mundo. Para ela, a indignação com o ocorrido só serviu de combustível para lutar mais. “Até aquele momento, eu achava que vivia em um Estado Democrático de Direito. Só não me prenderam porque eu disse que era professora e mãe de três filhos, mas vi adolescentes desarmados apanhando muito e sendo presos. Hoje, um ano depois, posso dizer que estou mais forte para lutar contra o desmonte da educação pública no Paraná”, assegurou a professora.

Os que sofreram com a repressão em 2015 ocuparam a praça de outro jeito na última sexta-feira (29). A pedagoga Eliane Pedrolo viajou de Nova Prata do Iguaçu a Curitiba para participar da manifestação. Quando a nossa reportagem se aproximou, Eliane estava sentada em uma toalha na grama, feito piquenique, almoçando com suas colegas de profissão. Disse que retornar à praça onde foi reprimida em 2015 não a despertou tantos sentimentos ruins. “Eu dependo do meu trabalho e tenho que valorizá-lo, não é? A gente tem que lutar pelo bem comum. É por isso que batalho pela educação pública e de qualidade para todas e todos”, disse a pedagoga.

Já para a psicóloga Renata Moraes (CRP 08/15962), voltar à praça é sinônimo de resistência. Trabalhadora do Tribunal de Justiça do Paraná, Renata foi diretamente atingida pelo confisco de R$8 bilhões do Fundo Previdenciário dos servidores estaduais. Após relatar as cenas de horror que presenciou no Massacre, a psicóloga declarou que vê esperança na mobilização de quem trabalha. “É bom ver que, um ano depois, ninguém está em casa chorando. Tem muita gente aqui, lembrando dessa data que, infelizmente, faz parte da nossa história. É difícil constatar a força que os três poderes têm para atuar contra o povo, mas nosso principal sentimento hoje é de resistência”, pontuou.

Pensativo, o professor de Sociologia Mario Celso Pasqualin lamentou que o posicionamento da Justiça paranaense tenha sido praticamente nulo até agora. “O sentimento é de indignação”, disse. De acordo com o professor, outros governos estaduais protagonizaram ataques ao funcionalismo público, mas há algo que difere Beto Richa. “O atual governo se superou pela falta de recursos, pela ausência de cursos de capacitação e principalmente pela truculência com que trata as trabalhadoras e os trabalhadores”, finalizou.

Sindypsi PR conversa com psicólogos que viveram o Massacre de perto

Para marcar o aniversário de um ano do Massacre do 29 de abril de 2015, o Sindypsi PR convidou psicóloga e psicólogos que vivenciaram a repressão para contar o que viram. Clique aqui e confira o especial “29 de Abril” do Sindypsi PR.

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