O Sindicato dos Psicólogos no Estado Paraná apresenta essa nota para expor seu posicionamento ético e técnico com relação às situações de opressão e violência contra as mulheres cis e trans*, especialmente com relação à cultura do estupro.
A ciência psicológica de forma geral ecoa o projeto político de nosso tempo: o da individualização, da culpabilização individual por fenômenos sociais nos sujeitos e da naturalização da opressão. Neste sentido, quando tratamos de um segmento historicamente oprimido (como as mulheres ou as LGBTs) é quase natural que o senso comum responsabilize justamente estes setores pelas violências à que são subjugados. Compreendemos que a tarefa das psicólogas e psicólogos é justamente reverter esta concepção. Um fazer técnico comprometido com a defesa intransigente dos segmentos oprimidos materializa a vocação da nossa categoria: o enfrentamento ao que produz a violência, o sofrimento, a anulação de direitos e a opressão na perspectiva da emancipação individual e coletiva destes sujeitos. Neste sentido, acreditamos que a culpabilização da mulher que sofre a violência machista – em qualquer circunstância em que ela acontece – segue na contramão do perspectiva emancipatória da Psicologia. Nos casos de violência contra a mulher, é indispensável compreendermos que a culpa nunca é da vítima. Em diversos casos de agressões às mulheres e mesmo em feminicídos, o senso comum geralmente é apresentado em argumentos como “a mulher provocou”, “mas se não estivesse bêbada, nada teria acontecido”, “depois que o homem foi provado, é impossível segurá-lo”, “mas era apenas uma prostituta”, “ela estava vestida de forma inapropriada e provocativa”, “tem mulher que gosta de apanhar”, “ela quer só se aparecer” apenas reforçam a lógica da cultura do estupro, que reivindicamos combater. Posicionamentos deste teor devem ser rejeitados pelos profissionais psicólogos e psicólogas.
O debate feminista – da luta contra a opressão às mulheres – nunca saiu de pauta porque a violência sistêmica contra a mulher sempre se apresentou como uma realidade. Dados do Instituto Sangari (Mapa da Violência Contra a Mulher, 2011) apontam que o Paraná é o terceiro estado do Brasil com maior incidência de casos de violência contra as mulheres. Piraquara, na região metropolitana de Curitiba, ocupa o segundo lugar no ranking nacional entre os municípios em que mais se matam mulheres. Outros municípios também apresentam uma realidade alarmante, como Araucária (22º lugar), Fazenda Rio Grande (32º lugar),Telêmaco Borba (39º) e União da Vitória (46º). O desafio está colocado e nós, psicólogas e psicólogos não podemos nos abster de enfrentar as consequências da violência em nossos encaminhamentos profissionais.
Acreditamos que o enfrentamento à violência machista deve ser feito em todos os espaços: não apenas nos coletivos sindicais e movimentos transfeministas, mas apropriado pela nossa categoria em suas práticas profissionais cotidianas. Esta posição deve ocupar nossos locais de trabalho, nossas posições públicas na mídia e nos espaços de formação acadêmica. Deve ser protagonizado pelas mulheres mas nos orientar – à todos e todas -, em todos os momentos e encaminhamentos técnicos que fazemos.
A luta pelos direitos humanos se reatualiza à cada vez que a violência é silenciada ou justificada em explicações técnicas ou científicas mirabolantes. Que não sejamos nós, psicólogas e psicólogos, os agentes da naturalização desta opressão.