Manifestação em Curitiba denuncia retrocessos na saúde mental

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Sindypsi PR participou do ato “Nenhum passo atrás – manicômios nunca mais”, realizado na tarde de quinta-feira (17) no centro de Curitiba. Usuárias/os dos equipamentos de saúde mental foram os protagonistas da manifestação

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Aos gritos de “Sai, Valencius, e não volta mais”, cerca de 500 pessoas marcharam pelo centro de Curitiba na tarde de quinta-feira (17) contra a nomeação de Valencius Wurch para a Coordenação Geral de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas do Ministério da Saúde. A indicação, feita pelo ministro Marcelo Castro, surpreendeu os movimentos sociais pela saúde mental e as/os trabalhadoras/es e usuárias/os da Rede de Atenção Psicossocial (Raps). Nos cartazes, viam-se mensagens de repúdio à lógica manicomial e pedidos de valorização das conquistas da Reforma Psiquiátrica. O ato foi organizado por militantes e entidades do Coletivo Abraça Raps, integrado também pelo Sindypsi PR. O grupo foi formado recentemente para dar novo fôlego à Luta Antimanicomial em Curitiba.

Para o presidente do Sindicato dos Psicólogos do Paraná (Sindypsi PR), Thiago Bagatin (CRP 08/14425), o objetivo da manifestação foi atingido. “Conseguimos dialogar com a população e expressar o nosso repúdio à lógica mercadológica e manicomial que o Ministério da Saúde quer reforçar no SUS e nas políticas de saúde mental. A demonstração da nossa força é essencial para mostrar ao ministro e ao próprio Valencius que, se eles quiserem retrocessos, terão que enfrentar a nossa mobilização”, salientou.

Por que Valencius é um retrocesso?

ato_manicomios2Valencius Wurch é médico psiquiatra e ex-diretor da Casa de Saúde Dr. Eiras de Paracambi,  maior manicômio privado da América Latina fechado em 2012 após denúncias, investigações e um longo processo na Justiça. Não por acaso, ele foi um dos críticos da Reforma Psiquiátrica, conquista dos militantes da Luta Antimanicomial. Para a médica psiquiatra e porta-voz do Coletivo Abraça Raps, Sylvia Cardin, o próprio histórico de Valencius indica o atraso que ele representa.

“É o histório de um sujeito que não conseguiu produzir nenhuma transformação e esteve sempre à frente de um manicômio. Essa é a experiencia profissional dele. Por ele não ter participado do processo da Reforma Psiquiátrica, acho muito difícil que ele compreenda o sentido dela. Basta que ele pare de investir no processo de consolidação das políticas atuais de saúde mental para que um desmonte aconteça”, alerta Sylvia.

Sylva se preocupa com o desperdício do investimento realizado nos CAPS nos últimos 20 anos, montante responsável por criar uma rede que, atualmente, agrega cerca de  2.300 unidades. A médica também alerta que a desvalorização da Saúde Mental irá, consequentemente, afetar o funcionamento do próprio Sistema Único de Saúde (SUS).  “O modelo criado pela Saúde Mental vem alimentando o SUS com o conhecimento relacional, o das relações humanas, que são as chamadas de tecnologias leves, e não só as tecnologias duras, que seriam as vacinas, os prédios e leitos. A saúde mental tem mostrado para o SUS como é trabalhar em rede, o que á intersetorialidade… Com o desmonte dos CAPS, há também o desmonte de uma rede, de uma tecnologia e de um pressuposto teórico que dá base ao sistema de saúde atualmente”, salienta.

Próximos passos

ato_manicomios3Manifestações contrárias à nomeação de Valencius estão surgindo por todo o Brasil. Para Sylvia, o próximo passo é descobrir uma forma de recriar o movimento social pela saúde mental. “Uma sugestão é que a gente se recrie por meio de associações e fóruns de debate permanente com entidades, mas sem esquecer que este é um movimento popular que não deve ser ligado a um governo ou a outro”, aponta.

Thiago Bagatin reafirma que o Sindypsi PR estará presente e atuante nas próximas formulações de estratégias e mobilizações contrárias ao desmonte da Saúde Mental no Brasil. “O ano de 2015 mostrou a toda a sociedade que, se não lutarmos, os retrocessos serão permanentes. O Sindypsi PR está pronto para começar 2016 ainda mais forte e convida toda a categoria para participar da luta pela saúde mental da nossa população”.

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