Câmara de Curitiba aprova presença de doulas no parto

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Mães e doulas ocuparam as galerias da Câmara Municipal de Curitiba

A Câmara dos Vereadores de Curitiba aprovou por unanimidade o projeto de lei que garante às doulas o direito de acompanhar as gestantes antes, durante e depois do parto. Votado em primeiro turno na terça-feira (8) e em segundo turno na quarta-feira (9), o projeto recebeu a aprovação dos 33 vereadores presentes. A sessão contou com a manifestação de mães, pais, gestantes e doulas que ocuparam as galerias do plenário da Câmara para reivindicar um nascimento mais humanizado.

Doula não faz parto, doula faz parte

Mas, afinal, o que faz a doula? Se fosse possível resumir a função dessas mulheres em uma frase, diria-se que elas transformam o parto em um momento mais calmo e menos violento para as mães. A palavra “doula” vem do grego e significa “mulher que serve”. O termo se aplica às mulheres que dão suporte emocional e físico a outras mulheres antes, durante e após o trabalho de parto. Nem parteira, nem enfermeira. Ela é uma presença amiga constante que informa a gestante sobre o que está acontecendo durante o procedimento de parto.

A doula Fabíola Coradin comemora a aprovação do projeto

Doula há aproximadamente um ano, Fabíola Coradin acompanhou a votação e se somou a dezenas de mulheres nas galerias do plenário da Câmara. Aos olhos dela, a inserção da doula no trabalho de parto não é sinônimo de rivalidade com a equipe médica, mas de apoio e acolhimento emocional e físico à parturiente. “Desde sempre, as mulheres foram responsáveis pelo parto e é importante que isso seja resgatado. Não queremos voltar à pré-história. A questão é aproveitar toda a tecnologia disponível sem dispensar o acolhimento emocional de que a mulher precisa na hora do parto”, defende.

Com a aprovação da Lei das Doulas, Fabíola acredita que um grande passo é dado em direção ao respeito às vontades das mulheres na hora do parto. “Chega a ser incoerente a gente ter pedir a humanização do parto de um ser humano, mas é necessário. Muitos partos normais não têm nada de normal, e sim de anormal. Então a gente comemora que, a partir de agora, a doula poderá acolher e amparar tanto a mãe quanto o marido e os familiares nesse momento tão importante”.

Mulheres e autonomia na hora do parto

Xênia Mello, advogada e militante do parto humanizado em Curitiba

Advogada, militante feminista e pesquisadora da temática do cuidado, Xênia Mello é uma das mulheres que encabeçam o debate sobre o parto humanizado em Curitiba. Convicta das contribuições das doulas antes, durante e depois do trabalho de parto, Xênia resgata aspectos históricos que ajudam a explicar o porquê do nascimento ter se tornado um negócio lucrativo às custas da autonomia das mulheres. “Quando a ciência ganha mais espaço na sociedade, a saúde é abordada pela perspectiva da doença e é tecnicizada. É nesse momento que o parto deixa de ser um evento social circundado pelas mulheres para se tornar um evento médico”, explica, lembrando que até 50 ou 60 anos atrás, a maioria da população nascia em casa.

Uma vez hospitalizado e medicalizado, aborda a advogada, o parto passa a integrar a engrenagem do sistema capitalista, tendo como consequência a retirada de autonomia das mulheres sobre o corpo e o parto. “Um parto cheio de intervenções medicalizadas é altamente lucrativo. Movimenta a indústria farmacêutica, o mercado dos equipamentos cirúrgicos, a estrutura dos hospitais e um grande número de trabalhadores especializados. Não haveria tanto lucro se o parto normal fosse acompanhado, por exemplo, por apenas uma enfermeira obstetra”, expõe.

A matéria agora vai para sanção ou veto do prefeito de Curitiba, Gustavo Fruet. Os movimentos que reivindicam a humanização do nascimento e o respeito aos direitos e escolhas das gestantes convidam a população a ser mobilizar para que as garantias de fato saiam do papel.

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