Para este 8 de março, o Sindypsi PR preparou uma entrevista com uma profissional que presta apoio a vítimas de estupro na capital paranaense. Estado é o terceiro do Brasil em número de estupros

Neste dia 8 de março, o Brasil tem poucos motivos pra comemorar quando se trata da segurança das mulheres. O 8º Anuário Brasileiro de Segurança aponta para um cenário alarmante: o país registrou 50.320 casos de estupro em 2013. Sabe-se, no entanto, que nem todas as vítimas têm apoio e coragem para denunciar, ou seja, o número de incidentes é superior ao que é notificado. Em um país onde uma mulher sofre estupro a cada 10 minutos, o Dia Internacional de Luta das Mulheres deve servir de instrumento para dar visibilidade a essa triste realidade.
Ainda de acordo com o 8º Anuário Brasileiro de Segurança, o Paraná é o terceiro estado em números absolutos de estupros, somando 3.523 casos. Ficamos atrás apenas de São Paulo (12.057) e do Rio de Janeiro (5.613). Levando em conta os números registrados e os subnotificados, é possível ter noção de quantas mulheres e famílias são diretamente atingidas por esse crime. Nesse cenário, o trabalho das psicólogas e dos psicólogos representa uma importante ferramenta de enfrentamento à violência sexual contra as mulheres.
Atendimento no Paraná
Em Curitiba, um dos serviços disponíveis às mulheres vitimadas por estupro é oferecido pelo Ministério Público do Paraná (MP-PR). O Núcleo de Atendimento à Vítima de Estupro (NAVES) dá suporte psicológico a mulheres que, em momentos de sofrimento, tomam coragem e dão continuidade à ação penal contra o agressor. A psicóloga do NAVES, Érica Eiglmeier (CRP 08/15479), explica que o apoio psicológico ameniza o desgaste emocional das vítimas durante o processo. “Essa mulher vai ter que reconhecer o agressor, participar de audiências, relatar o caso a juízes, a delegados. A gente tenta aproveitar os depoimentos para que a mulher não precise se expor muito, mas nem sempre é possível. Tudo isso provoca um desgaste psíquico muito grande”, aponta.
Érica relata que o estresse pós-traumático a que são submetidas as mulheres vítimas de estupro afeta profundamente as situações mais cotidianas: objetos e lugares as remetem ao cenário e ao momento do crime. “Elas revivem essa situação de violências e isso limita a vida delas. Nós chegamos a atender vítimas que chegavam aqui e não conseguiam mais dirigir, acabavam se desfazendo do automóvel. A função do NAVES é justamente dar o apoio para que a vítima recupere a sua condição de vida anterior à violência”, aponta.
Culpabilização da vítima
Faz parte da Cultura do Estupro culpabilizar a vítima pela violência sexual. Não raro, veem-se comentários que imputam a responsabilidade do crime à mulher violentada. Culpam a roupa curta, culpam o fato dela estar andando à noite na rua, mas não o estuprador. Érica contesta esse senso com elementos da sua própria experiência enquanto psicóloga que atende as vítimas. “A maioria das mulheres que nós atendemos aqui foram estupradas no caminho de ida ou de volta do trabalho. Nós trabalhamos com a desmistificação dessa culpabilização. Mostramos dados, mostramos que essas mulheres não estão sozinhas enquanto vítimas”, afirma.
Para Érica, o fato de homens e também mulheres culparem a vítima pelo crime faz parte de uma única cultura, que é muito marcada pela noção de “moral e bons costumes”. “Essa cultura acha que a mulher não pode ter direito ao lazer. E daí que ela estava cruzando a rua às seis horas da manhã porque saiu da balada? Ela está infringindo alguma lei?”, questiona.
A culpabilização da vítima acontece, muitas vezes, dentro de casa. Segundo Érica, a falta de apoio das pessoas próximas à vítima influencia diretamente no processo de denúncia e de recuperação da mulher. “ Quem consegue denunciar é quem tem apoio. É muito claro pra mim que a mulher que tem uma família que apoia consegue denunciar e seguir em frente. E o NAVES vem também para preencher a lacuna para aquelas que, de repente, não têm o apoio, para que se sintam encorajadas. Aqui, elas terão um apoio psicológico gratuito, sigiloso e serão atendidas somente por mulheres”, explica.
A Psicologia e a luta contra a Cultura do Estupro
Para Érica, a função do apoio psicológico nessa situação de fragilidade é fazer com que a mulher recupere sua condição de vida anterior ao estupro. “A gente mostra para essas mulheres que elas não estão sozinhas em termos de serem vítimas. Procuramos acolhê-las no sentido de mostrar que esse medo que elas desenvolvem não são absurdos. Mostramos que esse trauma realmente acontece. Por meio disso, elas vão se sentindo mais humanas”, aponta.