20 de Novembro: A Psicologia e a luta contra o racismo.

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Confira o artigo: Consciência Negra, Relações Raciais e a Psicologia

por Michely Ribeiro da Silva*

“A carne mais barata do mercado é a carne negra.

Que vai de graça pro presídio

e para debaixo de plástico.

Que vai de graça pro subemprego

e pros hospitais psiquiátricos.

A carne mais barata do mercado é a carne negra”

A música “A Carne” de Seu Jorge, Marcelo Yuca e Wilson Capellette, interpretada por Elza Soares, evidencia uma trajetória e constatação da realidade vivenciada pelas populações negras brasileiras em um contexto marcante diante das iniqüidades para com esses indivíduos.

A realidade das populações negras brasileiras tem mudado ao longo do passar dos anos muito por conta da intervenção dos movimentos sociais negros, no processo de reivindicação de garantia de direitos por parte do poder público, que por sua vez acaba por pautar a sociedade sobre as disparidades em diversos segmentos populacionais, ancoradas pelo debate das relações raciais.

Tem-se no Brasil, de acordo com dados do CENSO[1] de 2010 do IBGE, que 50,7% da população brasileira pertence ao segmento racial negro (compreendendo pretos e pardos). Independentemente do índice de maior representatividade no país, a mesma apresenta significativas desvantagens do restante da população como ocupação, emprego, renda familiar, alfabetização, anos de estudo e acesso à saúde.

Na tentativa de compreender como ocorre a dinâmica racial no Brasil, diversos autores enfatizam a inserção do negro na sociedade tendo como ponto de partida o período da escravidão. Desde que a ocupação do país ocorreu e fora colonizada com mão de obra escravizada para realização das atividades, e partindo dessas a miscigenação e incorporação de elementos da cultura africana na cultura brasileira, Freyre[2] desenvolve o conceito de “democracia racial” defendendo a superação de desigualdades decorridas das diferenças raciais.

Compreende-se que o processo de inserção do negro na sociedade brasileira da época, não ocorreu de forma plenamente passiva e pacífica como o explicitado por Freyre. E nessa perspectiva, para superar o mito dessa “democracia racial”, Florestan Fernandes[3]enfatiza que no Brasil existe uma discriminação disfarçada, onde é priorizado o discurso igualitário, sem atentar-se à necessidade de que para que a igualdade ocorra entre diferentes, há necessidade da eqüidade. Destaca ainda que o fim do regime escravagista não significou o fim do preconceito, e que as imagens negativas em relação aos escravizados conservam-se como características intrínsecas da população negra.

Nesse sentido é perceptível que a herança escravagista na formação do povo brasileiro nega o preconceito, fazendo com que, apesar dos diversos estudos e formas de se relacionar, as relações raciais sejam pautadas de forma discriminatória, estabelecendo relações disfarçadas e o racismo se torna um gritante negado e negligenciado.

O conceito de racismo adotado por Essed [4] traz a definição do fenômeno como uma ideologia, uma estrutura e um processo, através do qual determinados grupos, tendo por base características biológicas e culturais verdadeiras ou atribuídas, são percebidos como grupos étnicos diferentes e inferiores. Essas diferenças identificadas são utilizadas, posteriormente, como fundamentos lógicos para a exclusão dos membros desses grupos no que se refere ao acesso a recursos materiais e não materiais. O autor ressalta que o racismo sempre envolve conflito entre grupos a respeito de recursos culturais e materiais. Sendo assim passa a acontecer pelas regras, práticas e percepções individuais, mesmo que por definição não seja uma característica de indivíduos. Dessa maneira tem-se que combater o racismo não é uma atividade individual, mas sim de cunho ideológico, por operar através das relações culturais e sociais.

O racismo é uma expressão violenta da diferença, por partir das desconstrução e, portanto, da eliminação do outro, baseada na suposta inferioridade do outro e de outras etnias. Nesse sentido desconsiderar o que negros e negras sentem e apresentam/relatam, significa eliminar do campo direto de análise, porque esse sentimento é inferior aos outros tidos como referenciais na formação de vida ancorada em uma sociedade de padrões racistas, e formação acadêmica que não apresenta as diversidades étnicas e raciais como determinantes do processo saúde-doença. A isso damos o nome de racismo institucional, que é o fracasso das instituições e organizações em prover um serviço profissional e adequado às pessoas por causa de sua cor, cultura, origem racial ou étnica, que se manifestam através por meio de normas, práticas e comportamentos discriminatórios adotados no cotidiano de trabalho, resultantes da ignorância, falta de atenção, preconceito ou de estereótipo racistas.

Como discurso na ideologia dominante, não é reconhecido que o racismo seja um problema estrutural[5], mas sim uma crença e ações que apóiam de forma aberta o ideário de hierarquias com base na genética ou na biologia entre os grupos de pessoas. A dificuldade encontrada nessas definições restritas de racismo é que elas fingem não observar a maneira expressiva com a qual o racismo se manifestou e tem se manifestado. A compreensão das relações de desigualdades é perpassada necessariamente pelo reconhecimento do racismo enquanto um constructo social, e, portanto um determinante social em saúde. E nesse sentido pode-se ampliar e avançar no campo da Psicologia para promoção dos direitos humanos, fundamentando-se no princípio da igualdade.

A culturalização do racismo contribui para a consolidação da substituição do determinismo biológico pelo determinismo cultural. Sendo assim as culturas que se diferenciarem da cultura dominante vigente, são tidas como problemáticas e geralmente atrasadas, e ou segregacionistas quando em posicionamento político decidem por evidenciar e publicizar tais iniqüidades.

A construção de uma nação que seja livre e soberana e solidária, se configura enquanto o direito de todas as pessoas possam exercer de forma ativa sua cidadania. Para tal há necessidade de um processo de conhecimento das devidas situações que levam à construção histórica de cada processo vivenciado. Sendo assim se faz importante conhecer de onde vem o processo de racismo que se encontra posto na sociedade.

Visto que o racismo, assim como todas as nossas vivências encontram-se enquanto fruto da interação entre as pessoas, e, portanto é apreendido ao longo do processo de construção histórica, há necessidade de que a Psicologia desempenhe papel central nesse debate. A ciência psicológica pode contribuir no reconhecimento e interpretação do sofrimento da população negra. E nesse sentido há necessidade de se debruçar sobre temáticas distintas das “clássicas”, e visualizar seu potencial de contribuir no diálogo com outras ciências sobre a importância do olhar múltiplo para a promoção do bem estar nas relações sociais. A ideologia racista manifesta-se por meio das relações interpessoais presentes no dia a dia (trabalho, família, religião, espaços de lazer, escolas, entre outros). Essas representações sociais permeiam o imaginário coletivo, cristalizando e perpetuando práticas discriminatórias.

Por essa compreensão dos determinantes das desigualdades e enfrentamento das iniquidades raciais, há necessidade de uma leitura psicossocial. Com base nisso, a categoria de psicólogos e psicólogas brasileiras não pode ficar alheia às políticas públicas de igualdade racial, constituindo-se como importante estratégia para a saúde coletiva.

Na semana de comemoração do Dia da Consciência Negra promover o debate é importante instrumento para que

Se nós começarmos a pensar nossas práticas através do reconhecimento das desigualdades raciais, na produção do processo terapêutico de indivíduos, teremos a possibilidade de promoção da auto-crítica e ressignificação do espaço das mazelas sociais, e o impacto disso em nosso trabalho cotidiano.

Para finalizar cabe realizar citação de Kabengele Munanga:

“A Psicologia brasileira é uma área que teria muito a contribuir na produção do conhecimento sobre o racismo e suas conseqüências na estrutura psíquica tanto dos indivíduos vítimas, como dos discriminadores. Se os comportamentos sociais numa sociedade racista como a nossa podem ser objeto de um olhar interdisciplinar, cabe a cada disciplina implicada dar a sua contribuição dentro de sua especificidade, tornando-se ipso facto, auxiliar e complementar das disciplinas afins. No que toque aos estudos sobre o negro no Brasil, iniciados há mais de 100 anos, com os trabalhos pioneiros de Raimundo Nina Rodrigues, observa-se quantitativamente uma distância muito grande entre as ciências sociais e a psicologia que, na sua especificidade, teria auxiliado as primeiras a captar os fenômenos psíquicos do racismo, sobre os quais elas não tem domínio metodológico.”[6]

Sendo assim é possível inferir que as reflexões trazidas aqui são desafios para a Psicologia, no sentido da compreensão da importância dessa ciência para a melhoria de qualidade de vida de indivíduos negros, colaboração para melhor compreensão e atuação da dinâmica das relações raciais, no sentido de assumir o campo das intervenções como uma perspectiva política, no combate ao racismo e pela promoção da igualdade racial.

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1555309_793627317346218_5874505413530768669_n* Michely Ribeiro da Silva é graduada em Psicologia pela Universidade Federal do Paraná, tem por ênfase a Psicologia Social. Atua no movimento social visando a elaboração e estruturação de políticas públicas de saúde e equidade em saúde, voltadas especialmente às mulheres, populações negras, juventudes e prevenção às DST/HIV/AIDS. Está atualmente como conselheira nacional de saúde pela Rede Lai Lai Apejo – Saúde População Negra e AIDS, com vistas a implementação da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da População Negra. Atua ainda como membro da equipe de articulação da Mobilização Nacional Pró Saúde da População Negra e é filiada da Rede Mulheres Negras – PR.

[1] IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo demográfico, 2010. Disponível em < http://censo2010.ibge.gov.br/> . Acesso em: 04/02/2014.

[2] FREYRE, G. Casa grande e senzala. Rio de Janeiro: Maia e Schmidt, 1933.

[3] FERNANDES, Florestan. A Integração do Negro na Sociedade de Classes. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1965.

[4] ESSED, P. Understanding everyday racism: interdisciplinary theory. Londres: Sage, 1991. Apud: ROSEMBERG, Fulvia; BAZILLI, Chirley, SILVA, Paulo Vinicius Baptista da. Racismo em livros didáticos brasileiros e seu combate: uma revisão de literatura. Educação e Pesquisa. São Paulo: v. 29, n.1, p. 125-146, jan.-jun. 2003.

[5] ESSED, 1991. Apud: ROSEMBERG; BAZILLI; SILVA, 2003.

[6] CARONE, Iray; BENTO, Maria Aparecida Silva. (orgs.). Psicologia social do racismo: Estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil. Petrópolis: Vozes, 2002.

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