Manifestantes conservadores causaram tumulto na audiência pública interrompendo as falas de haitianos e autoridades. Infelizmente, nem no evento organizado para debater as suas condições de vida os imigrantes tiveram trégua: foram obrigados a ouvir ofensas e questionamentos aos seus direitos. Apenas uma amostra da violência que sofrem diariamente no Brasil.
O Sindypsi PR acompanhou o debate e preparou uma matéria. Confira!

O Sindicato dos Psicólogos do Paraná compareceu à Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) na manhã dessa sexta-feira (8), onde cerca de 150 pessoas se reuniram para a audiência pública “Como vivem os migrantes, refugiados e apátridas no Paraná”. O Conselho Regional de Psicologia também estava presente. A mesa debatedora foi composta por representantes dos poderes públicos federal, estadual e municipal, além de integrantes e lideranças de associações e entidades de imigrantes. Infelizmente, uma manifestação conservadora tumultuou o debate sobre a imigração. Com cartazes sobre os médicos cubanos e sobre a senadora Gleisi Hoffmann, uma das organizadoras da audiência, os manifestantes interromperam indiscriminadamente as falas com gritos e vaias. Apesar do tumulto, a audiência conseguiu abordar temas importantes para essa parcela da população paranaense.
Participaram da audiência pública representantes da Associação de Haitianos de Curitiba, da Secretaria de Justiça do Estado do Paraná, do Ministério Público do Trabalho, da Divisão de Imigração do Ministério das Relações Exteriores, do Ministério do Trabalho e Previdência Social, da Secretaria Nacional de Direitos Humanos da Presidência da República, da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e do Departamento de Migbrações da Secretaria Nacional de Justiça.
A situação dos haitianos no estado
No início das falas, a líder da Associação dos Haitianos de Curitiba, Laurete Bernardin, ressaltou as situações de violência que os imigrantes enfrentam aqui diariamente. “Não são poucos os relatos de preconceito e discriminação que chegam até nós. Muita gente diz para nós voltarmos para a nossa terra”, lamenta a presidente.
O secretário de Direitos Humanos de Curitiba, Igo Martini, lamentou episódios violentos que ocorreram na cidade nos últimos dias. Nas últimas semanas, equipamentos da prefeitura que abrigam adolescentes foram invadidos por pessoas encapuzadas que, por meio de ameaças aos servidores, exigiam que os abrigos saíssem dos bairros. Nesta quinta-feira (7), foi a óbito uma pessoa em situação de rua que havia sido agredida numa praça central de Curitiba no dia 8 de março. Igo demonstrou preocupação com o avanço da intolerância e da discriminação. “Deixo aqui um aviso aos racistas: os imigrantes que estão aqui na cidade são de várias nacionalidades, e nós convidamos todos a viverem de maneira pacífica”, disse.
O promotor de justiça do Ministério Público do Paraná, Fernando Mattos, foi à audiência pública em nome do promotor Olympio de Sá Sotto Maior Neto , e ressaltou o papel dos países no acolhimento de refugiados, apátridas e migrantes. “O Ministério Público está atento à temática dos imigrantes e dos espaços de deliberação sobre as políticas públicas para que a sociedade toda seja respeitada, principalmente as pessoas que estão em situação de vulnerabilidade”, ressaltou.
Já a promotora Cristiane Sbalqueiro Lopes, do Ministério Público Trabalho do Paraná, discursou sobre a importância do respeito aos direitos humanos e trabalhistas nas relações empregado-patrão quando se tratam dos refugiados, migrantes e apátridas. “Existem patrões que se acham no direito de negar direitos trabalhistas ou pagar menos por um serviço somente porque o trabalhador é haitiano”, denuncia.
Apesar das manifestações de xenofobia manifestadas durante a audiência pública, vários integrantes da mesa ressaltaram, na saudação de finalização, que o Brasil é um país acolhedor e que o ódio e a discriminação.
O Sindypsi PR continuará atento à temática. O assessor sindical do Sindypsi PR, psicólogo Cesar Fernandes (CRP 08/16715), integra o Conselho Estadual dos Direitos de Migrantes, Refugiados e Apátridas (CERMA/PR) e salienta que a situação de vulnerabilidade dos refugiados, apátridas e migrantes não pode ser ignorada pela sociedade civil. “É essencial avançarmos na consolidação de direitos humanos para este segmento, especialmente no que se refere à saúde mental dos refugiados, imigrantes e apátridas. Precisamos efetivar espaços de escuta e apoio psicológico, além de capacitar os servidores das políticas públicas que atendem este grupo”, sugere.