Aprovada em 1º lugar em Ciência Políticas pelo ProUni em uma faculdade de Curitiba, a ativista Rafaelly Wiest dedica seus dias à luta da população trans. Uma das batalhas é contra a patologização da transexualidade, ainda considerada um transtorno mental pela Classificação Internacional de Doenças (CID). “Não é um transtorno ou uma disforia como consta no CID. Não é. A gente pode até adoecer, mas isso se deve ao contexto violento que a sociedade nos impõe”, defende.
Por Vinícius Torresan
Aos 14 anos, Rafaelly se viu obrigada a abandonar os estudos. A rotina da estudante ia além da matemática, do português e da biologia. O simples desejo de estudar cobrava um preço alto e a inseria em um ciclo de violências físicas e psicológicas. Afastou-se da escola por dois anos e, ao regressar, confirmou o que a sociedade insistia em lhe dizer: ali não era o lugar dela. Não passava em frente ao colégio para evitar as crises de pânico. Em casa, ao lado dos sete irmãos homens e da família de religião tradicional, enfrentou até tentativas de exorcismo. Voltou à sala de aula somente aos 24 anos para concluir o ensino médio nas turmas da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Em 2016, anos depois, Rafaelly foi colocada no lugar “improvável”: no topo da lista de aprovados em Ciências Políticas de uma universidade de Curitiba.
Ativista do movimento trans e liderança da ONG Transgrupo Marcela Prado, Rafaelly Wiest tem certa familiaridade com o ambiente acadêmico, mas como palestrante. Os anos de caminhada e luta a transformaram em porta-voz da população trans. Essa convivência, no entanto, não diminui a ansiedade de lidar novamente com a sala de aula, lugar hostil às travestis e mulheres e homens transexuais. “Quando as travestis e transexuais ficavam somente nos guetos, existia violência, mas também havia medo por parte da sociedade. De um tempo pra cá, as pessoas trans que exigem os mesmos direitos e se colocam como cidadãs vêm causando estranhamento. Infelizmente, esse ódio está se transformando em violência gratuita e irracional”, lamenta Rafaelly lembrando que, somente em janeiro de 2016, cerca de 60 mulheres trans já foram assassinadas em território brasileiro.
Rafaelly, recém-aprovada no vestibular, é minoria na população trans do Brasil. Uma pesquisa da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) revelou que 9 entre 10 travestis e transexuais brasileiras estão na prostituição. A expectativa de vida dessa parcela da população é de 36 anos. Educação, moradia digna e emprego formal são direitos distantes para essas brasileiras. Rafaelly não tem dúvidas de que esse cenário é resultado da transfobia institucional do Estado brasileiro. Mas a sistemática violação dos direitos humanos da população trans também ganha força na Classificação Internacional de Doenças (CID) e nos manuais de transtornos mentais, nos quais a transexualidade (neles referenciada como “transexualismo”) ainda é considerada uma patologia.
Não é patologia, é um contexto que gera sofrimento
O lugar em que consta a transexualidade no CID atualmente já foi ocupado por gays e lésbicas. A homossexualidade foi considerada transtorno mental até 1990. Nos últimos anos, ativistas, organizações e estudiosos de todo o mundo intensificaram a luta pela retirada da transexualidade desses manuais. Para a psicóloga e professora do programa de pós-graduação de Psicologia Social Comunitária da Universidade Tuiuti do Paraná, Grazielle Tagliamento, a atuação da/do psicóloga/o tem o poder de contribuir para o bem-estar da população trans, mas também o de reforçar a lógica de patologização. “A formação do psicólogo é clínica e baseada no CID e nos DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), com pouco espaço para a análise da vivência de quem procura o psicológico. Não desmereço a técnica, mas é necessário usá-la a partir da vivência do paciente, no caso uma pessoa trans”, defende Grazielle.
Rafaelly lamenta a revisão do DSM finalizada no ano passado. Por pressão da Associação Americana de Psiquiatria, o item da transexualidade sofreu apenas uma pequena alteração: passou de transtorno para disforia. Para Rafaelly, essa derrota perpetua o viés patologizante da população trans. “Infelizmente, a Psicologia ainda trata a transexualidade como patologia. A atuação do psicólogo é respeitosa na maioria das vezes, mas ainda parte da noção de disforia. É aí que está a importância do psicólogo olhar a pessoa trans primeiro como pessoa e, depois, ajudá-la a descobrir a melhor maneira de lidar com seus problemas. Não é um transtorno ou uma disforia como consta no CID. Não é. A gente pode até adoecer, mas isso se deve ao contexto violento que a sociedade nos impõe”, defende a ativista.
Tanto Rafaelly quanto Grazielle chamam a atenção para o papel dos profissionais da Psicologia no acompanhamento de pessoas trans que iniciam o processo transexualizador. Em 2013, a portaria nº 2.803 do Ministério da Saúde regulou e ampliou o procedimento dentro dos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS). Além do processo transexualizador ser marcado pela falta de autonomia das pessoas trans sobre seus corpos e mentes, a fila de espera para a cirurgia de transgenitalização e readequação sexual chega a 10 anos. Neste processo, o trabalho da/o psicóloga/o precisa ser cauteloso. “Muitos psicólogos se baseiam em pré-conceitos sobre o que é ser homem e o que é ser mulher. Já convivi com profissionais da Psicologia que tinham dificuldade de reconhecer um homem transexual como homem simplesmente porque ele não queria ter pelos no corpo. Cria-se um ciclo bizarro: para ser considerado “doente mental”, a pessoa trans tem que se encaixar nos padrões da normalidade masculina ou feminina? Não faz sentido”, questiona Grazielle.
Afinal, como garantir respeito às pessoas trans?
“Eu gostaria de propor ao profissional da Psicologia um exercício sincero: feche os olhos e se imagine com o corpo oposto ao que você tem. Isso é a transexualidade. Você pode apanhar, você pode ser morto (e como matam…), mas você não vai mudar porque você se sente assim. A pessoa trans precisa de apoio para reverter esse quadro ou então ela vai fazer o que tiver que fazer: automedicação, automutilação, injeção de silicone industrial… Por conta dessa violência, a maioria não tem acesso à educação, ao trabalho e vive constantes situações de vulnerabilidade”, reflete.
Para a ativista, despatologizar a transexualidade não significa negar que a população trans precisa de acesso à saúde. “Por exemplo, uma mulher grávida não está doente, mas existe um procedimento clínico para ela por ser gestante. É a mesma coisa para pessoas trans. Só não queremos ser consideradas doente mentais”, questiona Rafaelly.
Quanto à formação das/dos futuros/as psicólogas/os, Grazielle propõe maior articulação entre os movimentos sociais, o meio acadêmico e os próprios psicólogos. “Nós temos muito poder sobre a vida das pessoas. Podemos considerá-las ‘loucas’ ou ‘anormais’. Isso serve para manter um padrão de normalidade que é construído socialmente ao longo da história. E quando você escuta a pessoa trans, você personifica a vivência e isso modifica a sua atuação. O tripé movimento social, academia e Psicologia pode minimizar cada vez mais a estigmatização e a discriminação contra a população trans”, sugere a professora.