Greve Geral | Por que a Psicologia parou?

No ato da Greve Geral em Curitiba, perguntamos aos integrantes do Bloco da Psicologia o que os levou à manifestação. As respostas são plurais, mas indicam um receio compartilhado por todas e todos: as reformas vão precarizar as condições de trabalho e de vida da categoria

0
4955

img_0235-2redimenionada

“Psicólogas(os) contra as reformas de Temer” era o que se lia em uma das faixas levantadas pelas cerca de 20 mil pessoas que participaram do ato da Greve Geral em Curitiba na manhã desta sexta-feira (28). Ali, diversos setores da categoria estavam representados: psicólogas(os) da assistência social, da saúde, das organizações, da Justiça e das clínicas, cada qual com sua singularidade, mas todos em torno do objetivo de barrar as reformas da Previdência e trabalhista propostas pelo Governo Temer.

Perguntamos a quem participou do Bloco da Psicologia, organizado pelo Sindypsi PR, o principal motivo pelo qual aderiu à paralisação. As respostas, apesar de plurais, indicam uma percepção unânime: as reformas vão afetar toda a categoria. Confira os relatos:

miris-redimensionadaMiriane Souza – Psicóloga na Fundação Municipal de Saúde (FEAES) – CRP 08/15963

Este modelo de reforma trabalhista e previdenciária afeta todos os trabalhadores da saúde mental, que vão perder condições de trabalho e garantias. A precarização do emprego torna o empregado volátil e a rotatividade tende a aumentar, o que, na área da saúde, interfere diretamente na qualidade da assistência. Além do fato de que o trabalhador não terá nenhum incentivo para buscar capacitação profissional. Também já conseguimos ver uma dificuldade na reinserção profissional de usuários do Caps. Imagino que as reformas também vão afetar essa população, que já se encontra em grandes dificuldades para ter uma oportunidade de trabalho que não seja precarizada.

 

italoÍtalo Esper – Psicólogo clínico – CRP 08/21239

Precisamos nos entender enquanto categoria, para além da prática individual. A clínica às vezes é compreendida como uma prática individualista e individualizante, mas é importante nos vermos enquanto parte de uma categoria que integra um coletivo, a sociedade. Essas reformas afrontam justamente o senso de coletividade. Não é porque eu trabalho como profissional autônomo que eu não posso me engajar em uma causa coletiva e popular. Mas é importante ressaltar que nós também seremos atingidos pelas reformas, por exemplo com a dificuldade de acessar o direito básico de se aposentar.

 

luciana-redimensionadaLuciana Moraes – Psicóloga do Tribunal de Justiça do Paraná – CRP 08/14417

Penso no futuro da categoria em dois aspectos. Como trabalhadoras e trabalhadores, me preocupo com as terceirizações, que vão flexibilizar direito e impedir o avanço de nossas pautas, como as 30 horas, o piso salarial. Somos muitos profissionais autônomos, mas também estamos inseridos em campos como serviço público, em empresas, em ONGs etc. Vamos sentir os impactos dessa reforma como qualquer outro trabalhador.

Do ponto de vista da nossa função social dos psicólogos, é ainda mais aterrorizante. Nós estamos em contato direto com populações vulneráveis que precisam de vários programas sociais e políticas públicas. Elas vinham ganhando espaço e visibilidade com as políticas que a gente tinha. Agora, estamos vendo elas serem gradativamente derrubadas. Isso tem um impacto também na Psicologia se pensarmos no nosso objeto. Tem impacto na saúde mental, na circulação social e na identidade social dessas pessoas.

 

fabricioFabiano Andriolli – Psicólogo clínico – CRP 08/15198

Na clínica, quase não temos garantias. O psicólogo chega a trabalhar em planos de saúde para atender 16 pessoas por dia e receber R$1500 por mês, que condições são essas? Esse desmanche das leis trabalhistas vai precarizar ainda mais o que já está precário. Então é importante lutar não só pelas nossas condições de trabalho, mas pelas de todos.

O psicólogo precisa compreender, também, o papel que ele tem na sociedade. Os princípios que regem a nossa profissão são os Direitos Humanos. Toda vez que há um ato política que venha a ferir os direitos humanos, a gente precisa se posicionar. É preciso parar com esse mito da neutralidade. Não podemos deixar essa polarização política se sobrepor ao nosso principal objetivo, que é atuar em prol do sujeito, da subjetividade e dos direitos humanos.

 

altieres-redimensionadaAltieres Frei – Psicólogo do Propulsão, projeto voltado à saúde mental de adolescentes – CRP 08/20211

Além de afetar o trabalhador psicólogo, que já tem um campo de atuação escasso em um serviço público sucateado, com gastos congelados, as reformas nos afetam porque produzem demandas sociais que são muito mais intensas. O abismo de pessoas empobrecidas que não vão conseguir se aposentar, ou mesmo a própria onda de desânimo é produtora de sintomas que precisam ser considerados pela Psicologia. Para além da luta de classe do psicólogo, é preciso que a gente se movimente contra essas reformas entendendo que elas provocam um grande impacto social.

 

tiago-redimensionadaTiago Morales Calve – Professor de Psicologia na Universidade Federal do Paraná – CRP 08/18270

A precarização do trabalho traz como consequência inevitável a precarização da vida das trabalhadoras, dos trabalhadores e de suas famílias. É impossível não considerar que essas reformas vão afetar diretamente a saúde mental tanto das psicólogas e dos psicólogos quanto do usuários. Esse cenário de flexibilização de vínculos e direitos trabalhistas, jornadas extensas ou até duplas, repressão por meio do assédio moral, ausência de progressão e instabilidade vai, certamente, contribuir para a intensificação do sofrimento humano.

 

graziele-redimansionadaGrazielle Tagliamento – Professora de Psicologia na Universidade Tuiuti do Paraná – CRP 08/17992

A Psicologia não pode estar desvinculada do compromisso social e da transformação social. Se ela se cala, ela é cúmplice de violação de direitos de trabalhadoras, de trabalhadores, inclusive das próprias psicólogas e psicólogos. É importante mostrar a cara da Psicologia e não perder de vista esse compromisso.

 

Sem comentários

Deixe uma resposta

*