{"id":5399,"date":"2017-02-10T13:07:06","date_gmt":"2017-02-10T16:07:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/?p=5399"},"modified":"2017-08-21T16:08:52","modified_gmt":"2017-08-21T19:08:52","slug":"a-psicologia-e-a-negligencia-com-o-racismo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/a-psicologia-e-a-negligencia-com-o-racismo\/","title":{"rendered":"A Psicologia e a neglig\u00eancia com o racismo"},"content":{"rendered":"<p><em>\u00a0\u201cConsiderando que o racismo \u00e9 um fator de risco para a sa\u00fade mental, e se a gente pensar que isso n\u00e3o \u00e9 debatido na forma\u00e7\u00e3o do psic\u00f3logo, d\u00e1 pra dizer que a Psicologia est\u00e1 sendo negligente com a maioria da popula\u00e7\u00e3o do Brasil\u201d, diz Fernanda Almeida Pedroza (CRP 08\/21395), psic\u00f3loga cl\u00ednica que estuda as rela\u00e7\u00f5es entre sa\u00fade mental e discrimina\u00e7\u00e3o racial.<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-5400\" src=\"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2017\/02\/fernanda-pedroza1-900x600.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"467\" srcset=\"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2017\/02\/fernanda-pedroza1-900x600.jpg 900w, http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2017\/02\/fernanda-pedroza1-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2017\/02\/fernanda-pedroza1-696x464.jpg 696w, http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2017\/02\/fernanda-pedroza1-1068x712.jpg 1068w, http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2017\/02\/fernanda-pedroza1-630x420.jpg 630w, http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2017\/02\/fernanda-pedroza1.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/p>\n<p>\u201cEu me descobri negra aos 22 anos\u201d, afirma a psic\u00f3loga Fernanda Almeida Pedroza (CRP 08\/21395), que est\u00e1 terminando uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o na qual ela fez quest\u00e3o de relacionar, em seu trabalho de conclus\u00e3o, a discrimina\u00e7\u00e3o racial e a sa\u00fade mental de negras e negros. A declara\u00e7\u00e3o lhe pareceu estranha? A pr\u00f3pria Fernanda explica. \u201cEu sentia o racismo, mas n\u00e3o nomeava como tal. Sempre ouvi que eu era branca demais para ser preta e preta demais para ser branca. A sensa\u00e7\u00e3o era de que eu estava no limbo. S\u00f3 me descobri negra depois de adulta\u201d.<\/p>\n<p>A autoafirma\u00e7\u00e3o demorou para chegar, e o que pode parecer um simples impulso interno de identifica\u00e7\u00e3o tem a ver, na verdade, com a exist\u00eancia de um racismo estrutural no Brasil.\u00a0 \u201cSe pensarmos na vida em sociedade, que come\u00e7a na fam\u00edlia, vai para a escolinha e depois em outros espa\u00e7os, h\u00e1 ind\u00edcios de racismo j\u00e1 na primeira inf\u00e2ncia, que carrega um fator de risco para o resto da vida. A crian\u00e7a negra \u00e9 chamada de sujinha, esquisita, a do cabelo ruim, e ela cresce nesse meio racista\u201d, lembra a psic\u00f3loga, que critica a aus\u00eancia de debates sobre a quest\u00e3o racial nas escolas, na forma\u00e7\u00e3o dos profissionais e nas fam\u00edlias. \u201cSe ningu\u00e9m questiona, as pessoas passam a ver o racismo como algo normal ou inexistente\u201d.<\/p>\n<p>Fernanda come\u00e7ou a estudar a rela\u00e7\u00e3o entre racismo e Psicologia por conta pr\u00f3pria, j\u00e1 que n\u00e3o existiam disciplinas no curso que abordassem a tem\u00e1tica. A consequ\u00eancia disso \u00e9 a dificuldade de achar estudos sobre a quest\u00e3o racial e a sa\u00fade mental. \u201cEu encontrei material da Psican\u00e1lise e da Psicologia Social, mas n\u00e3o da Cognitivo-comportamental, que \u00e9 a minha linha te\u00f3rica. A sa\u00edda foi trazer esse debate para a minha linguagem\u201d, conta. As pesquisas acad\u00eamicas impulsionaram tamb\u00e9m a vida profissional de Fernanda, que atende em sua cl\u00ednica e v\u00ea crescer a demanda de pessoas negras por atendimento psicol\u00f3gico.<\/p>\n<p>\u201cIdentifiquei que algumas delas queriam ser atendidas por mim porque viram minha foto. V\u00e1rias pessoas negras me contam que t\u00eam medo de chegar para um psic\u00f3logo e ter que explicar o que \u00e9 racismo, ou do terapeuta dizer que isso n\u00e3o existe. Tenho pacientes que passaram por isso\u201d, relata Fernanda, que afirma j\u00e1 ter sido questionada ao falar sobre essa prefer\u00eancia dos pacientes. \u201cPerguntaram se eu achava que somente negros podem atender negros, ou se psic\u00f3logos heterossexuais n\u00e3o podem atender homossexuais. Eu n\u00e3o penso assim, mas, por outro lado, devido a falta dos temas na forma\u00e7\u00e3o dos profissionais, d\u00e1 pra compreender o porqu\u00ea de algumas pessoas terem essa prefer\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p><strong>O racismo na terapia<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-5401\" src=\"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2017\/02\/fernanda-pedroza2-600x900.jpg\" alt=\"fernanda-pedroza2\" width=\"262\" height=\"393\" srcset=\"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2017\/02\/fernanda-pedroza2-600x900.jpg 600w, http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2017\/02\/fernanda-pedroza2-200x300.jpg 200w, http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2017\/02\/fernanda-pedroza2-696x1044.jpg 696w, http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2017\/02\/fernanda-pedroza2-1068x1602.jpg 1068w, http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2017\/02\/fernanda-pedroza2-280x420.jpg 280w, http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2017\/02\/fernanda-pedroza2.jpg 1365w\" sizes=\"auto, (max-width: 262px) 100vw, 262px\" \/>Ansiedade de desempenho, auto-conceito pobre, baixa autoestima e depress\u00e3o s\u00e3o alguns dos casos que chegaram at\u00e9 a psic\u00f3loga. Nem sempre as queixas s\u00e3o diretamente relacionadas ao racismo, mas o pr\u00f3prio processo terap\u00eautico come\u00e7a a evidenciar as influ\u00eancias da discrimina\u00e7\u00e3o. \u201cNo caso das mulheres negras com baixa autoestima, por exemplo, meu papel \u00e9 acolher e ajudar a pensar no que \u00e9 poss\u00edvel fazer com essa realidade. Eu ajudo a prevenir um dano emocional maior\u201d, explica Fernanda depois de citar o caso de uma mulher negra que foi obrigada a alisar o cabelo para permanecer no emprego. \u201cAs pessoas mais empoderadas n\u00e3o est\u00e3o exclu\u00eddas do mundo, que \u00e9 racista. Ela precisa trabalhar, pagar contas\u2026 Varia muito de caso para caso\u201d.<\/p>\n<p><strong>A Psicologia trata a quest\u00e3o racial com neglig\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p>Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), negros representavam mais da metade dos brasileiros em 2014: 53,6%.\u00a0 \u201cConsiderando que o racismo \u00e9 um fator de risco para a sa\u00fade mental, e se a gente pensar que isso n\u00e3o \u00e9 debatido na forma\u00e7\u00e3o do psic\u00f3logo, d\u00e1 pra dizer que a Psicologia est\u00e1 sendo negligente com a maioria da popula\u00e7\u00e3o do Brasil\u201d, assegura a psic\u00f3loga.<\/p>\n<p>Uma das preocupa\u00e7\u00f5es de Fernanda se refere ao poder que a Psicologia tem de legitimar verdades. N\u00e3o falar sobre o racismo pode aumentar a sensa\u00e7\u00e3o de que ele n\u00e3o \u00e9 um problema. \u201cOs psic\u00f3logos levam em considera\u00e7\u00e3o diversos fatores de risco para a sa\u00fade mental. Por que n\u00e3o fazer o mesmo com o racismo? Eles podem n\u00e3o ter consci\u00eancia da gravidade disso, mas n\u00e3o deixa de ser neglig\u00eancia. \u00c9 importante atuar e agir de maneira n\u00e3o racista, em um movimento que vai do reconhecimento \u00e0 desconstru\u00e7\u00e3o de preconceitos. Para isso \u00e9 preciso saber o que \u00e9 o racismo\u201d, alerta a psic\u00f3loga.<\/p>\n<p><strong>Forma\u00e7\u00e3o contra o preconceito<\/strong><\/p>\n<p>Para al\u00e9m de uma mudan\u00e7a de conduta, Fernanda defende que a forma\u00e7\u00e3o da psic\u00f3loga e do psic\u00f3logo tenha uma abordagem apropriada sobre a quest\u00e3o racial. \u201cAs faculdades devem debater o racismo como quest\u00e3o de sa\u00fade mental, como preven\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso trabalhar para conscientizar as pessoas de que elas s\u00e3o racistas, e que tudo bem, desde que elas se disponham a desconstruir esses preconceitos\u201d.<\/p>\n<p>A psic\u00f3loga relaciona essa dificuldade de autoquestionamento com o fato de o racismo, no Brasil, ser <em>indiz\u00edvel. <\/em>Em outras palavras: as pessoas t\u00eam pr\u00e1ticas racistas, mas n\u00e3o se identificam como tal. \u201cEu tamb\u00e9m tive que me reconhecer como preconceituosa para superar meus preconceitos. Esse \u00e9 o primeiro passo\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u201cConsiderando que o racismo \u00e9 um fator de risco para a sa\u00fade mental, e se a gente pensar que isso n\u00e3o \u00e9 debatido na forma\u00e7\u00e3o do psic\u00f3logo, d\u00e1 pra dizer que a Psicologia est\u00e1 sendo negligente com a maioria da popula\u00e7\u00e3o do Brasil\u201d, diz Fernanda Almeida Pedroza (CRP 08\/21395), psic\u00f3loga cl\u00ednica que estuda as rela\u00e7\u00f5es <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5400,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-5399","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5399","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5399"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5399\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5629,"href":"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5399\/revisions\/5629"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5400"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5399"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5399"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5399"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}