{"id":4900,"date":"2016-01-29T14:39:59","date_gmt":"2016-01-29T17:39:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/?p=4900"},"modified":"2016-01-29T15:54:04","modified_gmt":"2016-01-29T18:54:04","slug":"visibilidade-aumenta-mas-transexualidade-ainda-e-classificada-como-patologia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/visibilidade-aumenta-mas-transexualidade-ainda-e-classificada-como-patologia\/","title":{"rendered":"Visibilidade aumenta, mas transexualidade ainda \u00e9 classificada como patologia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Aprovada em 1\u00ba lugar em Ci\u00eancia Pol\u00edticas pelo ProUni em uma faculdade de Curitiba, a ativista Rafaelly Wiest dedica seus dias \u00e0 luta da popula\u00e7\u00e3o trans. Uma das batalhas \u00e9 contra a patologiza\u00e7\u00e3o da transexualidade, ainda considerada um transtorno mental pela Classifica\u00e7\u00e3o Internacional de Doen\u00e7as (CID). \u201cN\u00e3o \u00e9 um transtorno ou uma disforia como consta no CID. N\u00e3o \u00e9. A gente pode at\u00e9 adoecer, mas isso se deve ao contexto violento que a sociedade nos imp\u00f5e\u201d, defende.<\/p>\n<p>Por Vin\u00edcius Torresan <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-4901\" src=\"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2016\/01\/rafaelly_wiest1-600x900.jpg\" alt=\"rafaelly_wiest1\" width=\"285\" height=\"428\" srcset=\"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2016\/01\/rafaelly_wiest1-600x900.jpg 600w, http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2016\/01\/rafaelly_wiest1-200x300.jpg 200w, http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2016\/01\/rafaelly_wiest1-696x1044.jpg 696w, http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2016\/01\/rafaelly_wiest1-1068x1602.jpg 1068w, http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2016\/01\/rafaelly_wiest1-280x420.jpg 280w, http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2016\/01\/rafaelly_wiest1.jpg 1333w\" sizes=\"auto, (max-width: 285px) 100vw, 285px\" \/>Aos 14 anos, Rafaelly se viu obrigada a abandonar os estudos. A rotina da estudante ia al\u00e9m da matem\u00e1tica, do portugu\u00eas e da biologia. O simples desejo de estudar cobrava um pre\u00e7o alto e a inseria em um ciclo de viol\u00eancias f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas. Afastou-se da escola por dois anos e, ao regressar, confirmou o que a sociedade insistia em lhe dizer: ali n\u00e3o era o lugar dela. N\u00e3o passava em frente ao col\u00e9gio para evitar as crises de p\u00e2nico. Em casa, ao lado dos sete irm\u00e3os homens e da fam\u00edlia de religi\u00e3o tradicional, enfrentou at\u00e9 tentativas de exorcismo. Voltou \u00e0 sala de aula somente aos 24 anos para concluir o ensino m\u00e9dio nas turmas da Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos (EJA). Em 2016, anos depois, Rafaelly foi colocada no lugar \u201cimprov\u00e1vel\u201d: no topo da lista de aprovados em Ci\u00eancias Pol\u00edticas de uma universidade de Curitiba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ativista do movimento trans e lideran\u00e7a da ONG Transgrupo Marcela Prado, Rafaelly Wiest tem certa familiaridade com o ambiente acad\u00eamico, mas como palestrante. Os anos de caminhada e luta a transformaram em porta-voz da popula\u00e7\u00e3o trans. Essa conviv\u00eancia, no entanto, n\u00e3o diminui a ansiedade de lidar novamente com a sala de aula, lugar hostil \u00e0s travestis e mulheres e homens transexuais. \u201cQuando as travestis e transexuais ficavam somente nos guetos, existia viol\u00eancia, mas tamb\u00e9m havia medo por parte da sociedade. De um tempo pra c\u00e1, as pessoas trans que exigem os mesmos direitos e se colocam como cidad\u00e3s v\u00eam causando estranhamento. Infelizmente, esse \u00f3dio est\u00e1 se transformando em viol\u00eancia gratuita e irracional\u201d, lamenta Rafaelly lembrando que, somente em janeiro de 2016, cerca de 60 mulheres trans j\u00e1 foram assassinadas em territ\u00f3rio brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rafaelly, rec\u00e9m-aprovada no vestibular, \u00e9 minoria na popula\u00e7\u00e3o trans do Brasil. Uma pesquisa da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) revelou que 9 entre 10 travestis e transexuais brasileiras est\u00e3o na prostitui\u00e7\u00e3o. A expectativa de vida dessa parcela da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 de 36 anos. Educa\u00e7\u00e3o, moradia digna e emprego formal s\u00e3o direitos distantes para essas brasileiras. Rafaelly n\u00e3o tem d\u00favidas de que esse cen\u00e1rio \u00e9 resultado da transfobia institucional do Estado brasileiro. Mas a sistem\u00e1tica viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos da popula\u00e7\u00e3o trans tamb\u00e9m ganha for\u00e7a na Classifica\u00e7\u00e3o Internacional de Doen\u00e7as (CID) e nos manuais de transtornos mentais, nos quais a transexualidade (neles referenciada como \u201ctransexualismo\u201d) ainda \u00e9 considerada uma patologia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o \u00e9 patologia, \u00e9 um contexto que gera sofrimento<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-4903\" src=\"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2016\/01\/grazielle_tagliamento-900x600.jpg\" alt=\"grazielle_tagliamento\" width=\"333\" height=\"222\" srcset=\"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2016\/01\/grazielle_tagliamento-900x600.jpg 900w, http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2016\/01\/grazielle_tagliamento-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2016\/01\/grazielle_tagliamento-696x464.jpg 696w, http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2016\/01\/grazielle_tagliamento-1068x712.jpg 1068w, http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2016\/01\/grazielle_tagliamento-630x420.jpg 630w, http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2016\/01\/grazielle_tagliamento.jpg 1999w\" sizes=\"auto, (max-width: 333px) 100vw, 333px\" \/>O lugar em que consta a transexualidade no CID atualmente j\u00e1 foi ocupado por gays e l\u00e9sbicas. A homossexualidade foi considerada transtorno mental at\u00e9 1990. Nos \u00faltimos anos, ativistas, organiza\u00e7\u00f5es e estudiosos de todo o mundo intensificaram a luta pela retirada da transexualidade desses manuais. Para a psic\u00f3loga e professora do programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o de Psicologia Social Comunit\u00e1ria da Universidade Tuiuti do Paran\u00e1, Grazielle Tagliamento, a atua\u00e7\u00e3o da\/do psic\u00f3loga\/o tem o poder de contribuir para o bem-estar da popula\u00e7\u00e3o trans, mas tamb\u00e9m o de refor\u00e7ar a l\u00f3gica de patologiza\u00e7\u00e3o. \u201cA forma\u00e7\u00e3o do psic\u00f3logo \u00e9 cl\u00ednica e baseada no CID e nos DSM (Manual Diagn\u00f3stico e Estat\u00edstico de Transtornos Mentais), com pouco espa\u00e7o para a an\u00e1lise da viv\u00eancia de quem procura o psicol\u00f3gico. N\u00e3o desmere\u00e7o a t\u00e9cnica, mas \u00e9 necess\u00e1rio us\u00e1-la a partir da viv\u00eancia do paciente, no caso uma pessoa trans\u201d, defende Grazielle.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rafaelly lamenta a revis\u00e3o do DSM finalizada no ano passado. Por press\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Americana de Psiquiatria, o item da transexualidade sofreu apenas uma pequena altera\u00e7\u00e3o: passou de transtorno para disforia. Para Rafaelly, essa derrota perpetua o vi\u00e9s patologizante da popula\u00e7\u00e3o trans. \u201cInfelizmente, a Psicologia ainda trata a transexualidade como patologia. A atua\u00e7\u00e3o do psic\u00f3logo \u00e9 respeitosa na maioria das vezes, mas ainda parte da no\u00e7\u00e3o de disforia. \u00c9 a\u00ed que est\u00e1 a import\u00e2ncia do psic\u00f3logo olhar a pessoa trans primeiro como pessoa e, depois, ajud\u00e1-la a descobrir a melhor maneira de lidar com seus problemas. N\u00e3o \u00e9 um transtorno ou uma disforia como consta no CID. N\u00e3o \u00e9. A gente pode at\u00e9 adoecer, mas isso se deve ao contexto violento que a sociedade nos imp\u00f5e\u201d, defende a ativista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tanto Rafaelly quanto Grazielle chamam a aten\u00e7\u00e3o para o papel dos profissionais da Psicologia no acompanhamento de pessoas trans que iniciam o processo transexualizador. Em 2013, a portaria n\u00ba 2.803 do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade regulou e ampliou o procedimento dentro dos servi\u00e7os do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS). Al\u00e9m do processo transexualizador ser marcado pela falta de autonomia das pessoas trans sobre seus corpos e mentes, a fila de espera para a cirurgia de transgenitaliza\u00e7\u00e3o e readequa\u00e7\u00e3o sexual chega a 10 anos. Neste processo, o trabalho da\/o psic\u00f3loga\/o precisa ser cauteloso. \u201cMuitos psic\u00f3logos se baseiam em pr\u00e9-conceitos sobre o que \u00e9 ser homem e o que \u00e9 ser mulher. J\u00e1 convivi com profissionais da Psicologia que tinham dificuldade de reconhecer um homem transexual como homem simplesmente porque ele n\u00e3o queria ter pelos no corpo. Cria-se um ciclo bizarro: para ser considerado \u201cdoente mental\u201d, a pessoa trans tem que se encaixar nos padr\u00f5es da normalidade masculina ou feminina? N\u00e3o faz sentido\u201d, questiona Grazielle.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Afinal, como garantir respeito \u00e0s pessoas trans?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-4904\" src=\"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2016\/01\/rafaelly_wiest_2-900x600.jpg\" alt=\"rafaelly_wiest_2\" width=\"330\" height=\"220\" srcset=\"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2016\/01\/rafaelly_wiest_2-900x600.jpg 900w, http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2016\/01\/rafaelly_wiest_2-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2016\/01\/rafaelly_wiest_2-696x464.jpg 696w, http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2016\/01\/rafaelly_wiest_2-1068x712.jpg 1068w, http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2016\/01\/rafaelly_wiest_2-630x420.jpg 630w, http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/..\/uploads\/2016\/01\/rafaelly_wiest_2.jpg 1999w\" sizes=\"auto, (max-width: 330px) 100vw, 330px\" \/>\u201cEu gostaria de propor ao profissional da Psicologia um exerc\u00edcio sincero: feche os olhos e se imagine com o corpo oposto ao que voc\u00ea tem. Isso \u00e9 a transexualidade. Voc\u00ea pode apanhar, voc\u00ea pode ser morto (e como matam\u2026), mas voc\u00ea n\u00e3o vai mudar porque voc\u00ea se sente assim. A pessoa trans precisa de apoio para reverter esse quadro ou ent\u00e3o ela vai fazer o que tiver que fazer: automedica\u00e7\u00e3o, automutila\u00e7\u00e3o, inje\u00e7\u00e3o de silicone industrial&#8230; Por conta dessa viol\u00eancia, a maioria n\u00e3o tem acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, ao trabalho e vive constantes situa\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade\u201d, reflete.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a ativista, despatologizar a transexualidade n\u00e3o significa negar que a popula\u00e7\u00e3o trans precisa de acesso \u00e0 sa\u00fade. \u201cPor exemplo, uma mulher gr\u00e1vida n\u00e3o est\u00e1 doente, mas existe um procedimento cl\u00ednico para ela por ser gestante. \u00c9 a mesma coisa para pessoas trans. S\u00f3 n\u00e3o queremos ser consideradas doente mentais\u201d, questiona Rafaelly.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto \u00e0 forma\u00e7\u00e3o das\/dos futuros\/as psic\u00f3logas\/os, Grazielle prop\u00f5e maior articula\u00e7\u00e3o entre os movimentos sociais, o meio acad\u00eamico e os pr\u00f3prios psic\u00f3logos. \u201cN\u00f3s temos muito poder sobre a vida das pessoas. Podemos consider\u00e1-las \u2018loucas\u2019 ou \u2018anormais\u2019. Isso serve para manter um padr\u00e3o de normalidade que \u00e9 constru\u00eddo socialmente ao longo da hist\u00f3ria. E quando voc\u00ea escuta a pessoa trans, voc\u00ea personifica a viv\u00eancia e isso modifica a sua atua\u00e7\u00e3o. O trip\u00e9 movimento social, academia e Psicologia pode minimizar cada vez mais a estigmatiza\u00e7\u00e3o e a discrimina\u00e7\u00e3o contra a popula\u00e7\u00e3o trans\u201d, sugere a professora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aprovada em 1\u00ba lugar em Ci\u00eancia Pol\u00edticas pelo ProUni em uma faculdade de Curitiba, a ativista Rafaelly Wiest dedica seus dias \u00e0 luta da popula\u00e7\u00e3o trans. Uma das batalhas \u00e9 contra a patologiza\u00e7\u00e3o da transexualidade, ainda considerada um transtorno mental pela Classifica\u00e7\u00e3o Internacional de Doen\u00e7as (CID). \u201cN\u00e3o \u00e9 um transtorno ou uma disforia como consta <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4901,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[32,3],"tags":[],"class_list":["post-4900","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaques","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4900","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4900"}],"version-history":[{"count":6,"href":"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4900\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4909,"href":"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4900\/revisions\/4909"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4901"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4900"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4900"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4900"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}